Tento alcançar um balanço líquido positivo em todas as minhas interações. É impossível não falar alguma coisa que não vá ofender em qualquer escala, mas tento sempre terminar uma conversa de forma no mínimo neutra. Tento, em pequenos atos, tornar o que há em volta de mim positivo. Acredito que a lei dos grandes números também se aplica à sociedade: uma multitude de pequenos altos positivos causam a cultura humana a mover de forma intencionalmente melhor.

Obviamente, não fui sempre assim. Cresci em uma cultura de bullying e privilégios, e inevitavelmente formou a minha maneira de pensar. Isso repercutiu fortemente na forma que eu interagia com outras pessoas, ecoando o comportamento de outros no passado. Mesmo sabendo como dói ouvir críticas sobre algo que é de sua natureza e que é difícil demais se livrar (alô obesidade), rimos, fazemos de conta que está tudo bacana e seguimos com o dia. Eu repeti esse comportamento e já fiz piada de outros baseado em aspectos físicos (sexo, peso, cor de pele) ou aspectos comportamentais (sexualidade). Não conheço nada de psicologia, mas tenho certeza que esse fenômeno é estudado e tem um nome particular e preciso.

Depois de chegar aos meus quase 30 anos, comecei a aprender um pouco mais sobre Budismo e alguma de suas práticas. Uma vez, um guia de meditação disse durante uma lição uma frase que causou uma impressão forte em mim. Parafraseando-o e fazendo tradução livre: O discurso intencional é o discurso que é gentil, verdadeiro, bem recebido e oportuno.

Essas poucas palavras são convidativas e superficialmente óbvias, mas praticar discurso intencional no cotidiano é muito difícil. Como balancear a minha vontade nerd de contar e corrigir fatos com o discurso gentil, que não ofende? Como garantir que o que falo é verdade e não especulatório? Ou que a conversa atual receberia bem uma conversa especulatória? Por fim, a mais difícil: mesmo depois de ter certeza que meu discurso é gentil, verdadeiro e seria bem recebido, mas a hora é a certa, e que teria resultados positivos?

Essa frase me ensinou um nível de empatia muito forte. Toda frase que falo é um convite de me colocar nos pés do ouvinte, imaginar como o dia dessa pessoa está sendo, como em uma conversa posso tentar mover ambas as nossas vidas infinitesimalmente para frente, como saber que o que acredito ser melhor é melhor para ambos. Mesmo sabendo que nunca vou acertar, a trajetória do pensamento para o discurso intencional já me transforma — o fato de considerar os sentimentos de outras pessoas antes do feedback positivo e egoísta de expor a minha idéia ou minha piada é a recompensa.

Essa frase hoje é um dos meus pilares, porque sei que uma frase pode mudar o curso de alguma vida, inclusive a minha. Todos nós lutamos uma batalha mental diariamente e aquela piada recorrente sobre o peso de um amigo meu, recorrente, me deixa profundamente infeliz, porque sei e sinto o peso das palavras. Me deixa triste também que não precisa ser uma frase repetida, mas apenas uma emissão causa um eco eterno. Apenas uma vez, uma frase pode deixar uma marca para o resto da vida. Como alguém, nem lembro quem, me disse que eu jamais poderia desenhar nada na minha vida, que eu não tenho senso artístico nenhum, eis a minha resposta, na forma de um coala:

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Eu sei que meu coala é horrível, mas já é alguma coisa!